Prefácio de Rafael Durante para o livro “Fisiologia interna: equilíbrio neuroendócrino e Hatha Yoga”, de Celso Batello
É com grande prazer que apresento aqui este prefácio, nova obra do meu amigo Dr. Celso Fernandes Batello, que mais uma vez enriquece o tema e mostra outra face do Sistema Nervoso Autônomo.
Certamente, o que descrevo a seguir tem um pouco de minha própria experiência pessoal como praticante do Yoga e da Ayurveda, a qual vim a conhecer há 18 anos.
O manual que esqueceram de nos entregar: manual do proprietário!
Vivemos numa época curiosa: temos manuais detalhados para os nossos celulares, para o micro-ondas e até para equipamentos mais sofisticados! Mas, para a máquina mais complexa de todas, o nosso próprio corpo, parece que perdemos as instruções.
A maioria de nós atravessa a vida no banco do passageiro. Se o coração dispara, se a ansiedade aperta ou se o sono não vem, sentimos que somos vítimas da nossa biologia. “É assim mesmo”, pensamos. “É o estresse da vida moderna…”
Mas e se eu lhe dissesse que existe um painel de controle? E se soubesse que, embora não possa controlar o que acontece no mundo lá fora, tem a capacidade de mudar a forma como o seu corpo reage aqui dentro?
Este livro nasce do encontro entre dois mundos que parecem distantes, mas dizem exatamente a mesma coisa. De um lado, a ciência moderna e o fascinante Sistema Nervoso Autónomo, o guardião invisível que decide se luta ou se descansa. Do outro, a sabedoria milenar do Hatha Yoga, uma tecnologia ancestral que já sabia “hackear” esse sistema milhares de anos antes de inventarmos o microscópio.
Nas páginas seguintes, não vamos falar de Yoga apenas como posturas bonitas para o Facebook, nem mergulhar em termos médicos que só complicam. Vamos conversar sobre como Ha (o Sol) e Tha (a Lua) não são apenas poesia mística, mas descrições precisas dos seus sistemas de aceleração e de freio.
Vamos descobrir por que respirar fundo acalma (não é magia, é fisiologia), e como simples movimentos podem convencer o seu cérebro de que está tudo bem, mesmo quando o mundo parece em caos.
A ciência moderna descobriu algo que confirma aquilo que os iogues sempre intuíram: as ásanas sustentadas e a respiração nasal lenta estimulam a produção natural de Óxido Nítrico (NO), uma molécula essencial para a saúde cardiovascular, respiratória e emocional.
Quando mantemos uma postura, alongamos, comprimimos suavemente e respiramos de forma consciente, o corpo aumenta a liberação de NO, que promove:
• vasodilatação e melhor circulação;
• oxigenação mais eficiente;
• redução de inflamação;
• relaxamento muscular;
• serenidade emocional;
• aumento do bem-estar.
O Óxido Nítrico age como um mensageiro silencioso que traduz esforço em calma, movimento em fluxo, postura em equilíbrio. É por isso que, após uma boa prática, sentimos clareza, leveza e um silêncio interno que não é psicológico — é biológico.
Outro detalhe !
O que é hiperemia reativa?
É o fenômeno em que uma região do corpo recebe um aumento súbito e intenso de fluxo sanguíneo após um período breve de:
• compressão;
• isquemia leve;
• estiramento;
• ou limitação temporária da circulação.
Quando o fluxo é liberado, o sangue volta com velocidade, pressão e volume aumentados, trazendo:
• Mais oxigênio;
• Mais nutrientes;
• remoção acelerada de metabólitos;
• ativação de Óxido Nítrico.
Isso é terapêutico e amplamente estudado.
Posturas como Trikonasana, Paschimottanasana, Padahastasana, Vīrabhadrasana e Ardha Matsyendrasana geram tensões, compressões e alongamentos nos músculos, fáscias e vasos.
Quando você mantém um ásana por 20 a 40 segundos, ocorre:
• leve redução do fluxo local (compressão ou mudança postural);
• acúmulo de CO2;
• ativação mecânica do endotélio.
Ao sair da postura, hiperemia reativa.
O Yoga, muito antes da ciência moderna, já sabia fazer isso acontecer.
Respire fundo. A viagem começa agora.
Hatha Yoga: o acelerador e o freio do seu corpo
Já parou para pensar que o nosso corpo funciona exatamente como um automóvel? Temos um pedal para acelerar e outro para frear. A ciência chama isso de sistemas Simpático e Parassimpático, mas no Hatha Yoga isso vem sendo compreendido há milênios como “Sol” e “Lua”.
1. O nome já diz tudo:
A palavra “Hatha” é a união de duas energias opostas (Ha (Sol)= calor, ação, movimento; Tha (Lua)= frescura, calma, descanso).
O objetivo não é escolher apenas um, mas equilibrar ambos.
2. O acelerador (Sistema Simpático):
É o modo de alerta. No Yoga, ativamos este sistema com posturas de força, permanência em ásanas exigentes ou sequências como a Saudação ao Sol.
3. O freio (Sistema Parassimpático):
É o modo de repouso e digestão. No Yoga, ativamos este estado com alongamentos profundos, respiração lenta e posturas restaurativas.
4. A “embreagem”: o grande segredo
O problema da vida moderna é que muitos vivem com o pé no acelerador e no freio ao mesmo tempo. O Yoga treina justamente a habilidade de mudar de estado rapidamente — ativar quando necessário, relaxar quando seguro.
Resumo
O Hatha Yoga é um treinamento para que o Sistema Nervoso não desabe. Ensina-nos a usar a energia do estresse quando preciso, mas também a desligar e restaurar quando possível. É um ajuste fino entre potência e calma, ação e repouso , Sol e Lua, perfeitamente apoiado pela biologia moderna e pelo Óxido Nítrico como mensageiro fisiológico do equilíbrio.
Recomendo a obra do Professor Hermógenes, “Yoga para Nervosos”, muito oportuna para os interessados nessa prática milenar!
Rafael Durante
Engenheiro Elétrico com ênfase em rádiofrequência (RF) micro-ondas, eletrônica, desenvolvedor de equipamentos eletromédicos, biofísica, microscópios de alta qualidade campo escuro. Biomédico com especialização em análises clínicas e hematologia, Medicina Ayurvédica e Yoga Brahma vidyalaya. Emissário do Haja Yoga Suddha Dharma Mandalam.
